Une famille de poètes : Paulo Abrunhosa

Paulo Abrunhosa (1958-2001)

Nasceu a 12.05.1958, no Porto. Nesta cidade, faz a primária e parte do secundário no extinto Colégio João de Deus, de onde sai para frequentar o Liceu António Nobre e aí concluir, em 1979, o curso complementar. Depois de cumprir o serviço cívico obrigatório, matricula-se, no ano seguinte, na Universidade de Coimbra. Em 1985 licencia-se em Direito, tendo, de seguida, iniciado o estágio para a advocacia, que não conclui. Avesso a todo o "establishment", recusa alinhar com as gerações engravatadas do seu tempo. Em 1987 funda, em colaboração com seu irmão Nuno, a revista "Metro", a primeira de distribuição gratuita em Portugal. Com o número especial dessa revista, publicado no Verão de 1994 e exclusivamente dedicado ao Algarve, vence, nesse mesmo ano, o 1." Prémio da Imprensa" da Região de Turismo daquela Província. Entretanto, entre a escrita e a noite, é convidado a dinamizar o espaço Café da Praça, promovendo aí iniciativas únicas de carácter lúdico e cultural, mormente entre as novas tendências da música de dança, marcando de forma indelével uma certa boémia da cidade. A morte apanhou-o aos quarenta e três anos de idade, no auge das suas capacidades, não lhe tendo consentido concluir este trabalho, cujos prefácio e epílogo deixou incompletos.

Diário de um Dromedário

Paulo Abrunhosa. Desenhos de PAM (Paulo Anciães Monteiro))

Quasi Edições 2001

 

 

 Paulo era um príncipe da palavra, alguém que se deslocava entre a suavidade das nuvens e a tempestuosidade da certeza com que se batia pela sua visão do mundo Não era fácil ser o seu irmão mais novo, mas com que saudade recordo as discussões que mantínhamos e nas quais eu me afundava numa sensação de pequenez e ignorância Batalhou até ao fim, numa coerência ímpar que a mais • ninguém conheci. Imperturbável no seu sobretudo branco, que lhe assentava como um manto real, o Paulo viveu de acordo com as suas próprias regras, das quais este livro é, apenas, mais um capitulo surpreendente. Uns olhos transparentes de bondade e luz, uma criança feliz embalada pelo carinho que devotava a todos quantos tiveram o privilégio de consigo privar, as mãos longilíneas que abraçavam o tempo com a firmeza delicada com que prendia uma cintura de mulher, o chá' tomado a altas horas da manhã, entre sonhos adiados e memórias de uma vida plenamente preenchida. Era assim o Paulo que, em tudo quanto tocava, deixava • um pouco de si e revelava inesperadamente o melhor de todos nós. Partiu tão depressa quanto viveu, sem deixar que nos despedíssemos com os beijos que tanto ' gostava de dar. Levou consigo a música que lhe habitava a alma, como se quisesse adiar o adeus, a última palavra que gostava de pronunciar. Irónico como sempre o Paulo privou-nos do nosso destino de irmãos, de nos sentarmos numa qualquer, tarde soalheira de Setembro, na fresca sombra das figueiras da Tapada fumando um cigarro impossível, entre histórias fantásticas e risos que lhe escondiam as lágrimas de um coração maior de que a terra que pisava. Como tanto gostava teve a palavra final, ou porventura ter-se-á levantado de mesa para ir jà ali e voltar talvez amanhã, quem sabe depois, no seu conceito infinito de tempo, sabendo que o aguardamos com a tranquilidade da espera que votamos aos anjos.

 

Pedro Abrunhosa

Porto, 16 outubro 2001

lire des extraits

Paulo était un prince du mot, quelqu'un qui se déplaçait entre la douceur des nuages et les rafales de la certitude avec laquelle il se battait pour sa vision du monde. Ce n'était pas facile d'être son frère cadet , mais avec quelle nostalgie je me rappelle les discussions que nous maintenions et dans lesquelles je me noyais dans une sensation de petitesse et d’ignorance. Il s’est battu jusqu'à la fin, dans une cohérence unique que je n´ai connue chez personne d´autre.. Imperturbable dans son pardessus blanc, qui lui tombait comme un manteau royal, Paulo a vécu conformément à ses propres règles, dont ce livre est à peine un chapitre surprenant. Des yeux transparents de bonté et de lumière, un enfant heureux bercé par l'affection qu’il consacrait à tous ceux qui ont eu le privilège de le connaître en privé, les mains longilignes qui étreignaient le temps avec la fermeté délicate avec laquelle il prenait une taille de femme, le thé pris aux hautes heures du matin, entre des rêves reportés et des mémoires d'une vie pleinement remplie. Il était ainsi Paulo, dans tout ce qu’il touchait, il laissait un peu de lui et se révélait inopinément le meilleur de nous tous. Il est parti aussi vite qu’il a vécu, sans nous laisser lui dire adieu, avec les baisers qu´il aimait tant donner. Il a emporté avec lui la musique qui habitait son l'âme, comme s’il voulait reporter son adieu, le dernier mot qui aimait prononcer. Ironique comme toujours, Paulo nous a privés de notre destin de frères, de nous asseoir par une quelconque après midi ensoleillée de septembre, à l’ombre fraîche des figuiers de la prairie, en fumant une cigarette impossible, entre des histoires fantastiques, des rires qui cachaient les larmes d´un cœur plus grand que la terre qu´il foulait.. Comme il aimait tant, il aura eu le dernier mot, ou par hasard se sera-t-il levé de table pour aller là bas et revenir demain peut-être, qui sait plus tard, dans sa conception infinie du temps, sachant que nous l’attendons avec la tranquillité de l’espérance que nous vouons aux anges

Paulo Abrunhosa Lives On!

Myspace Paulo Abrunhosa

 

 

Soirée 10 ème Anniversaire de la mort de Paulo Abrunhosa 18 juin 2011 Galeria-Bar Labirintho, Porto. "Noite do Dromedário"

 

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